Pode parecer contraintuitivo, mas o fato é que o canto gregoriano facilita a participação da assembleia na liturgia.
Sem dúvidas existem algumas barreiras iniciais a serem vencidas, como a pronúncia do latim (que pode ser completamente contornada pelo uso do português acompanhado de melodias adaptadas do gregoriano) e o aprendizado de novas peças. Entretanto, uma vez superadas as barreiras, o uso do gregoriano contribui para a participação ativa dos fiéis no canto.
Os motivos pelos quais isto ocorre estão muito bem explicados no seguinte trecho, extraído de um artigo[1] escrito pelo Professor Carlos Ramalhete:
“Aliás, um outro fator importante na participação dos fiéis no canto — e na sua facilitação — é a estrutura melódica e rítmica da música a ser cantada, bem como sua adequação à letra (ou vice-versa). No canto gregoriano, a voz jamais dá grandes saltos, de mais que uma terça ou quarta (de dó a mi ou a fá, por exemplo). Com isso, a melodia literalmente flui, subindo por degraus pequenos que estão ao alcance mesmo de vozes destreinadas. Tal não é o caso de muita música profana com tema religioso que hoje em dia se toca durante as Missas. Elas têm pulos melódicos enormes e imprevisíveis, que a maioria dos fiéis simplesmente desiste de tentar acompanhar.”
O primeiro ponto refere-se à complexidade melódica. Conforme exposto acima, o canto gregoriano não possui grandes saltos melódicos. Essa característica facilita muito a memorização, o aprendizado e a reprodução de suas melodias. Comparando-se as peças do gregoriano com outras de cunho mais popular, comumente executadas em celebrações, é possível notar como a dificuldade e complexidade destas últimas é frequentemente muito maior do que a das primeiras.
Outro motivo, elencado por Ramalhete, pelo qual o gregoriano, ou melodias inspiradas no gregoriano, facilita a participação da assembleia é o seguinte:
“A música da liturgia tem que ser cantável. Assobiável. Fácil melodicamente, para que quem não tem treinamento musical possa cantar sem problemas. Ela não pode dar pulos melódicos nem rítmicos, não pode demandar agudos inatingíveis por vozes comuns, etc. Usar músicas assim (ou seja, músicas que se afastam tremendamente do gregoriano, que há de ser sempre a referência) é na verdade uma forma de afastar dos fiéis do canto. É tanto maior a participação dos fiéis no canto quanto mais ele se aproxime do gregoriano.”
No trecho acima, destaca-se a questão da extensão vocal demandada pelo canto. Notas demasiadamente agudas ou graves dificultam, quando não impossibilitam, a participação dos fieis, os quais em sua vasta maioria não possuem treinamento técnico em canto.
O canto gregoriano respeita esta limitação de alcance vocal privilegiando as regiões médias da voz, facilmente atingíveis pela grande maioria das pessoas. Os cantos inspirados na música popular, por sua vez, não raramente se utilizam de vasta extensão vocal como forma de demonstrar o virtuosismo técnico dos músicos que executam tais peças.
Dentro do espírito liturgico, no qual o fim último do canto é conduzir à oração e a um melhor aproveitamento espiritual dos mistérios celebrados, a participação ativa da assembleia, preferencialmente cantando, é extremamente desejável e oportuna. Assim sendo, devemos rever a noção de que o gregoriano é um canto inacessível que desestimula a participação dos fiéis, pois por todos os motivos técnicos elencados neste texto, ele causa o efeito contrário: o de facilitar e estimular o canto vindo dos bancos das igrejas.
Por: Lucas Casagrande
[1] https://medium.com/@carlosramalhete/recuperar-a-m%C3%BAsica-lit%C3%BArgica-70408cd8f2b9