Um lugar comum nas discussões virtuais é a polarização entre progresso e tradição. Partindo do princípio, errôneo, de que os termos são opostos inconciliáveis, os defensores de cada corrente protagonizam um sem fim de debates invariavelmente estéreis.
De um lado, cria-se uma caricatura da tradição pintando-a como uma gaiola ou camisa de força cujo único propósito seria o de perpetuar costumes e ideias irrelevantes aos tempos contemporâneos de modo a frear ou mesmo impedir quaisquer formas de avanço.
No lado oposto, o progresso é tomado como sinônimo de progressismo, identificando assim qualquer forma de mudança ou atualização como algo indesejável e inadequado per se.
Um breve olhar para a realidade, e para a história bimilenar da Igreja, nos revela que de modo muito diverso das caricaturas acima apresentadas, a tradição e o progresso são inseparáveis.
A vida dos Santos, as obras espirituais, os hinos, os escritos, as homilias, os quadros, as catedrais e de uma forma particular toda e cada Santa Missa se constitui na atualização temporal e espacial das eternas verdades da fé.
Toda ação memorável na história da Igreja se constitui em progredir na tradição. Em, estando no Caminho, avançar alguns passos. É Santa Mônica e Santo Ambrósio gerando espiritualmente Santo Agostinho. É Santo Tomás de Aquino atualizar a ação de Agostinho respondendo aos desafios de seu próprio tempo ao mesmo tempo em que se insere no diálogo atemporal dos mistérios da fé. É São Bento, aqui figura de todos os santos fundadores e reformadores de ordens religiosas, lançando as bases sobre a qual as sucessivas gerações irão se assentar gerando incessáveis frutos.
A estrada não está pronta, a obra não está concluída. A Igreja militante sempre precisará progredir e avançar. Mas não progredir e avançar à esmo, à deriva, sem uma direção e um norte e sim dentro de um Caminho, o qual desenhado pelo próprio Cristo, vem sendo construído pelas sucessivas gerações de cristãos.
Este mesmíssimo espírito, de progresso na tradição, se faz presente no universo da música litúrgica, conforme a própria Igreja nos ensina.
Pio XII, em sua Encíclica Musicae Sacrae, recorda a citação de São Pio X na qual ele diz:
“A Igreja sempre favoreceu o progresso das artes e ajudou-o, acolhendo no uso religioso tudo o que o engenho humano tem criado de bom e de belo no curso dos séculos, desde que ficassem salvas as leis litúrgicas”
No Motu Prório Tra Le Sollicitude, de onde Pio XII retira a citação de São Pio X, este desenvolve ainda mais este ensinamento:
“…Por isso é que a música mais moderna é também admitida na Igreja, visto que apresenta composições de tal qualidade, seriedade e gravidade que não são de forma alguma indigna das funções litúrgicas.”
Como arremate, São João Paulo II em Motu Próprio reforça que as novas linguagens musicais devem ser avaliadas; em outras palavras deve-se verificar a compatibilidade e adequação delas aos ensinamentos da tradição, elas devem continuar o Caminho traçado por Cristo e não se apartar dele. Escreve o Santo:
“É preciso, portanto, avaliar com atençao as novas linguagens musicais, para recorrer à possibilidade de expressar também com elas as inextinguíveis riquezas do Mistério reproposto na Liturgia e favorecer assim a participação ativa dos fiéis nas diversas celebrações.”
Que saibamos nos inserir nesta tradição de progredir em direção à Morada Celestial.
Por: Lucas Casagrande