O Canto Gregoriano na Liturgia

O Canto Gregoriano na Liturgia

Por: André Delair

O canto gregoriano nasceu na aurora da Idade Média com a compilação de alguns hinos usados pela cristandade primitiva, inclusive advindas das sinagogas, por ordem do Papa São Gregório Magno (590-604). Esta coletânea de cânticos eclesiásticos passou para a História com o nome de canto gregoriano em homenagem ao virtuoso pontífice que, dentre os inúmeros importantes trabalhos de seu papado, organizou a liturgia, de uma maneira muito próxima da qual temos hoje.  O costume da recitação do Pater Noster no Cânon, antes da distribuição da Eucaristia, o cântico da Ave Maria no Ofertório, a organização da parte principal das leituras das Sagradas Escrituras e das orações da Missa e a introdução do costume de cantar o Kyrie Eleison são alguns exemplos da atualidade da organização da Liturgia Romana então realizada por São Gregório. Quanto à música litúrgica, ela permeia todo esse processo. 

Passados tantos séculos do seu surgimento, o Concílio Vaticano II definiu o gregoriano “como o canto próprio da liturgia romana”, destinado na ação litúrgica ao “primeiro lugar” (Sacrosanctum Concilium, 116). Em razão disso, os padres conciliares procuram estimular os fieis a “cultivar com sumo cuidado o tesouro da música sacra” recomendando de maneira ingente à formação de schola cantorum  “nos Seminários , noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como em outros institutos e escolas católicas” (Idem, 114-115).

Anos mais tarde, o Papa São João Paulo II reafirmou a primazia do gregoriano: “no tocante às composições musicais litúrgicas, faço minha a ‘regra geral’ formulada por Pio X nestes termos: ‘Uma composição religiosa é tanto mais sagrada e litúrgica quanto mais se aproxima – no andamento, na inspiração e no sabor – da melodia gregoriana; e é tanto menos digna do templo quanto mais se distancia desse modelo supremo” (Quirógrafo de São João Paulo II sobre a Música Litúrgica, 12).

Testemunha do relevante papel que a música sacra tem na vida espiritual dos católicos desde os primeiros tempos do cristianismo, Santo Agostinho em uma de suas mais célebres obras, as Confissões, afirmou que o contato com as piedosas melodias litúrgicas das cerimônias presididas por Santo Ambrósio o ajudaram a encontrar o caminho da Verdade: “Quanto chorei ouvindo vossos hinos, vossos cânticos, os acentos suaves que ecoavam em vossa Igreja! Que emoção me causavam! Fluíam em meu ouvido, destilando a verdade de meu coração. Um grande impulso de piedade  me elevava, as lágrimas corriam-me pela face, e me sentia plenamente feliz” (Confessionum 9, 6: PL 769,14.).

Movidos pela admiração para com o canto oficial da liturgia católica, muitos grupos, entidades, paróquias, seminários, mosteiros, etc procuram divulgar, mas sobretudo cultivar, este inestimável tesouro litúrgico. Em muitos templos sagrados do nosso país, afortunadamente, ecoa ainda o canto gregoriano para o bem dos fieis e a glorificação de Jesus Eucarístico, conforme as recentes orientações litúrgicas dadas pelo Papa Bento XVI: “Na arte da celebração, ocupa o lugar de destaque o canto litúrgico. […] Enquanto elemento litúrgico, o canto deve integrar-se na forma própria da celebração; consequentemente, tudo – no texto, na melodia, na execução – deve corresponder ao sentido do mistério celebrado, às várias partes do rito e aos diferentes tempos litúrgicos. Enfim, embora tendo em conta as distintas orientações e as diferentes e amplamente louváveis tradições, desejo – como foi pedido aos padres sinodais – que se valorize adequadamente o canto gregoriano, como canto próprio da liturgia romana” (Sacramentum Caritatis, 42).

Este post tem um comentário

  1. Edilson Alves de Souza

    Ótimo texto. Curto, objetivo, claro e informativo! Deus os abençoe…

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