A Multissecular Batalha contra os Abusos Litúrgicos

A Multissecular Batalha contra os Abusos Litúrgicos

Existe uma tendência em se pensar que os problemas e dificuldades que enfrentamos atualmente são exclusividade nossa, algo inédito e impensável aos homens das gerações anteriores.

Esse pensar também se manifesta no universo da Música Litúrgica. Por vezes, é atrativo imaginar que a utilização na missa de gêneros musicais estranhos ao espírito litúrgico é uma característica definidora dos nossos tempos. Nada poderia ser mais falso. Um breve olhar para a história revela que, longe sermos pioneiros, estamos inseridos em uma batalha que se desenrola há séculos.  

Como prova, apresento alguns trechos selecionados do Motu Proprio Tra Le Sollicitude, escrito pelo papa São Pio X e cujo tema é a música sacra:

“Não nos ocupamos de cada um dos abusos que nesta matéria (liturgia) podem ocorrer. A nossa atenção dirige-se hoje para um dos mais comuns, dos mais difíceis de desarraigar e que às vezes se deve deplorar em lugares onde tudo o mais é digno de máximo encômio para beleza e suntuosidade do templo, esplendor e perfeita ordem das cerimônias, frequência do clero, gravidade e piedade dos ministros do altar.

Neste primeiro trecho, destaco a descrição escolhida por São Pio X ao se referir aos abusos em matéria de Música Litúrgica: um dos mais comuns e dos mais difíceis de desarraigar. Ou seja , em 1903, mais de um século atrás, um Papa caracteriza os abusos em matéria de Música Litúrgica como recorrentes, comuns, e entre os mais difíceis de se combater.

Na sequência, o Santo Padre elenca alguns motivos pelos quais os abusos nesta matéria são tão abundantes:

“E de fato, quer pela natureza desta arte de si flutuante e variável, quer pela sucessiva alteração do gosto e dos hábitos no correr dos tempos, quer pelo funesto influxo que sobre a arte sacra exerce a arte profana e teatral, quer pelo prazer que a música diretamente produz e que nem sempre é fácil conter nos justos limites, quer, finalmente, pelos muitos preconceitos, que em tal assunto facilmente se insinuam e depois tenazmente se mantêm, ainda entre pessoas autorizadas e piedosas…”

Vou comentar cada ponto.

O primeiro é a a natureza da própria música, flutuante e variável. A música é composta de picos e vales, subidas e descidas, tensões e repousos, é, em suma, movimento. Por esta razão, sempre há o risco do movimento ir além ou ficar aquém dos limites apropriados.

É fácil se empolgar e adicionar expressividade, volume e intensidade para além do necessário. Também é fácil se refugiar na segurança dos tons e melodias mais contritos e não alçar os voos mais altos demandados pela ação litúrgica em determinados momentos.

O segundo ponto diz respeito às sucessivas alterações no gosto e nos hábitos com o correr dos tempos. É natural que os gostos musicais mudem com o passar do tempo. Não precisamos ir muito longe, hoje bem sabemos como os artistas e canções que estão em alta mudam cada vez mais rapidamente. E os efeitos de tais mudanças, visto que o homem participa da liturgia com a integralidade do seu ser, se fazem sentir também na forma como a Música Litúrgica é composta, executada e mesmo ouvida.

O terceiro ponto apresenta de modo mais claro a questão da influência da arte profana, como os gêneros de música popular, sobre a arte sacra. Bem sabemos que estas duas artes possuem objetivos bem diversos. A arte profana, os gêneros populares de música que escutamos nos momentos de lazer, que muitas vezes nos causam reflexões e experiências diversas, não são maus em si. Quando compatíveis com a reta visão de mundo cristã, podem ser legítima e salutar fonte de lazer e de cultura. Porém, são radicalmente diferentes da música composta com a expressa finalidade de servir a Deus através da liturgia.

O próximo ponto, o quarto, traz à tona a questão do prazer que a música diretamente produz. Alguns referem-se a este prazer como sentimentalismo. Não é uma terminologia inadequada, visto que, em sua raiz, sentimentalismo se associa ao conceito de paixão, algo externo que exerce influência sobre nós.

É notório que a música exerce um efeito físico sobre o ouvinte. Ela pode estimular seu corpo, sua imaginação e mesmo convidar sua alma a se recolher em oração, como é o caso da autêntica Música Litúrgica. Tais efeitos apresentam o constante desafio de contê-los nos justos limites, nos limites apropriados à celebração litúrgica.

O último ponto é muito vasto e eventualmente deverá ser explorado com maior profundidade. Para o momento, basta entender como certas concepções, como o mito de o Glória ser um canto trinitário, podem facilmente surgir e se manter mesmo entre pessoas piedosas.

Por todos os motivos acima expostos, concluí São Pio X:

“…há uma tendência contínua para desviar da reta norma, estabelecida em vista do fim para que a arte se admitiu ao serviço do culto…”

Fica assim demonstrada a afirmação inicial deste breve texto, a de que os problemas enfrentados hoje em matéria de Música Litúrgica, longe de serem uma exclusividade de nosso tempo, são uma tendência contínua que se faz presente há muito tempo e para qual devemos incessantemente dar uma resposta de modo que o reto caminho possa ser trilhado.

Por: Lucas Casagrande

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