O Músico para Além da Técnica

O Músico para Além da Técnica

Que um músico, assim como qualquer artista, deva buscar a excelência técnica dentro de seu ofício é algo que não se discute.

Na Música Litúrgica não é diferente. Quanto melhor for o domínio técnico do músico sobre seu instrumento e quanto maiores seus conhecimentos musicais tanto melhor será a contribuição que ele poderá dar ao exercer seu ministério.

No entanto, quando o assunto é Música Litúrgica, a música que exercerá uma importantíssima função dentro do culto endereçado a Deus, o domínio dos aspectos técnicos é necessário, porém não suficiente.

Aqui nos valemos dos documentos da Igreja, os quais diversas vezes alertam que ao músico que cantará a liturgia não basta a competência técnica, é preciso algo mais.

Este algo mais é a espiritualidade, é uma relação pessoal profunda e intensa com as realidades vivenciadas durante a Liturgia. Diz São João Paulo II em seu Motu Próprio:

“Somente um artista profundamente mergulhado no sensus Ecclesiae pode procurar compreender e traduzir em melodia a verdade do Mistério que se celebra na Liturgia.”

A Instrução Musicam Sacram reforça a importância do aspecto espiritual na vida dos músicos que cantam a liturgia:

“Além da formação musical, dar-se-á aos membros do coro uma formação litúrgica e espiritual adaptadas de modo que, ao desempenhar perfeitamente a sua função litúrgica, não se limitem a dar maior beleza à ação sagrada e um excelente exemplo aos fiéis mas adquiram também eles próprios um verdadeiro fruto espiritual.”

A Encíclica Musicae Sacrae também aborda a questão e pontua que as composições quando destituídas de inspiração religiosa se tornam incapazes de alcançar a finalidade da Música Litúrgica.

“Daí que, o artista sem fé, ou arredio de Deus com a sua alma e com a sua conduta, de maneira alguma deve ocupar-se de arte religiosa; realmente, não possui ele aquele olho interior que lhe permite perceber o que é requerido pela majestade de Deus e pelo seu culto. Nem se pode esperar que as suas obras, destituídas de inspiração religiosa – mesmo se revelam a perícia e uma certa habilidade exterior do autor -, possam inspirar aquela fé e aquela piedade que convêm à majestade da casa de Deus; e, portanto, nunca serão dignas de ser admitidas no templo da igreja, que é a guardiã e o árbitro da vida religiosa.

O trecho acima é mais um dos motivos pelos quais os gêneros populares de música, a chamada música profana, não devem servir de inspiração para a Música Litúrgica.

Lembremos que não bastam os aspectos técnicos, não basta uma melodia bonita e suave, uma harmonia bem estruturada e uma voz afinada e expressiva que execute a peça.

Por outro lado, a devoção e a espiritualidade destituídas dos elementos técnicos é igualmente incapaz de alcançar a finalidade da Música Litúrgica.

Portanto, aos músicos que servem a liturgia através de seus dons é necessário buscar a perfeição nestes dois âmbitos: técnica e espiritualidade.

Apenas assim o cantar será verdadeiramente uma oração e poderá adentrar o rol sobre o qual fala São João Paulo II em sua Carta aos Artistas:

“Quantas composições sacras foram elaboradas, ao longo dos séculos, por pessoas profundamente imbuídas pelo sentido do mistério. Crentes sem número alimentaram sua fé com as melodias nascidas do coração outros crentes, que se tornaram parte da Liturgia ou pelo menos uma ajuda muito válida para a sua decorosa realização. No cântico, a fé é sentida como uma exuberância de alegria, de amor, de segura esperança da intervenção salvífica de Deus.”

Por: Lucas Casagrande

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