Um artigo[1] escrito por Carlos Ayxelà intitulado “A música que vem de Deus: canto e música na liturgia”, conduz à uma reflexão muito interessante sobre a relação entre o silêncio e a oração.
Já exploramos os benefícios da autêntica música litúrgica na oração, agora fica o questionamento: a música e o silêncio competem entre si na liturgia?
Será necessário escolher um e abandonar o outro? Privilegiar um em detrimento do outro? Vejamos o que o artigo supracitado tem a dizer:
“A verdadeira música litúrgica é ela própria oração, é ela própria liturgia; não nos dispersa, não se limita a dar-nos uma alegria sensível ou um prazer estético: recolhe-nos, introduz-nos no mistério de Deus. Conduz-nos à adoração, que tem no silêncio uma das suas linguagens privilegiadas: o silêncio – recorda-nos o Papa – guarda o mistério. Se a música é de Deus, não competirá com o silêncio: levar-nos-á para o silêncio verdadeiro, o do coração. “
Com essa chave de leitura, fica evidente que a contraposição entre silêncio e música inexiste, conquanto a música seja autenticamente litúrgica tanto na forma quanto na execução. Sendo esse o caso, contrapor música e silêncio seria o mesmo que contrapor a recitação da prece eucarística, a leitura do evangelho ou mesmo a consagração ao silêncio.
Outro ponto que merece toda a atenção é o que Carlos chama de Silêncio do Coração.
Bem sabemos que silenciar os lábios não significa necessariamente silenciar os pensamentos, assim como silenciar os pensamentos não é o mesmo que silenciar o coração.
O silêncio do coração é a atitude interior de contemplação na qual toda a atenção dirige-se a um único ponto, abrindo na alma um espaço a ser preenchido, uma página em branco a ser escrita, um trono a ser ocupado. Evidentemente este ponto focal, este espaço, está reservado a Deus. E o autêntico canto litúrgico, apesar da ausência do silêncio exterior, conduz ao verdadeiro silêncio: o interior.
Os mistérios da fé ornados pelas melodias do canto litúrgico dirigem os pensamentos dos fiéis às realidades eternas por Deus reveladas. Neste espaço criado pela música, a alma se recolhe, realiza o movimento interior da oração, enquanto Deus cresce – dirigindo-se a nós de um modo vívido e pessoal, no íntimo de cada um.
Esta última ideia também se encontra representada no artigo que sucitou este breve texto:
“O verdadeiro amor e a verdadeira amizade vivem sempre desta reciprocidade de olhares, de silêncios intensos, eloquentes, cheios de respeito e veneração, de maneira que o encontro se viva profundamente, de modo pessoal e não superficial”
Por: Lucas Casagrande
[1] https://opusdei.org/pt-pt/document/musica-que-vem-deus-canto-e-musica-na-liturgia/