A Melodia e a Palavra

A Melodia e a Palavra

Nada do que está na liturgia está lá por acaso. Cada movimento, cada gesto e cada palavra carregam um significado profundo e harmonizam-se dentro de um conjunto cuja finalidade é a vivência do mistério pascal. Assim sendo, as palavras presentes na liturgia carregam também esta profundidade, devendo ser proferidas ou cantadas de modo compatível com sua importância.

Esta simples constatação nos impõe duas importantes conclusões: primeiramente a de que mesmo quando as palavras da liturgia são cantadas, o destaque, o foco, deve permanecer no texto enquanto a música exerce o papel de suporte; a segunda é que não se pode alterar os textos prescritos para adequá-los à música que será tocada, antes a música deve adequar-se ao texto de modo a melhor servi-lo.

O que aqui expomos é o fundamento, a lógica interna, da música litúrgica. O imaginário popular contemporâneo tende a considerar que a música litúrgica não passa da adaptação das melodias, harmonias e ritmos presentes nos gêneros populares à temática religiosa. Mesmo nos casos onde se tem o cuidado de adaptar a música oriunda destes gêneros populares à letra correta, conforme prescrito no missal, ainda assim o canto não está perfeitamente adequado, uma vez que não obedece à lógica acima exposta segundo a qual é a letra e não a música que deve ter o destaque.

Os gêneros populares, que estamos acostumados a ouvir, possuem de modo geral uma ênfase muito grande nos aspectos rítmicos. Dentro da música, o aspecto rítmico é aquele que estimula o corpo. Esse estímulo convida o corpo a interagir com a música por meio de movimentos – sejam palmas, o balançar do corpo ou a marcação do compasso com o pé-. Na liturgia, esta postura é indesejável, uma vez que é incompatível com os mistérios que estão sendo celebrados.

Muitos músicos que conduzem os cantos nas missas quando começam a perceber esta realidade procuram suavizar a execução dos cantos: tiram o peso dos instrumentos e procuram minimizar o aspecto rítmico dos mesmos. Esta postura está correta e é o que convidamos todos a fazerem, no entanto ainda existe um último degrau que pode ser galgado – colocar a ênfase no texto e subordinar a música a ele.

Esta característica de subordinação da música ao texto é uma das características definidoras do canto gregoriano, o qual ocupa o mais alto patamar dentro do canto litúrgico. O efeito alcançado pelo canto assim concebido é o de potencializar o texto ao qual ele está ligado.

Imagine quão mais potente e vivo se torna o ato de glorificar a Deus quando ao invés de somente recitar o hino do Glória o cantamos com o suporte musical adequado capaz de potencializar o louvor endereçado a Deus através das palavras entoadas.

Da mesma forma, o quão mais contritas não se tornam outras partes fixas como Kyrie e Agnus Dei quando corretamente cantadas.

O que aqui expomos encontra-se formulado de forma memorável na encíclica Musicae Sacrae Disciplina escrita pelo papa Pio XII:

14. E, de fato, nisto consiste a dignidade e a excelsa finalidade da música sacra, a saber, em – por meio das suas belíssimas harmonias e da sua magnificência – trazer decoro e ornamento às vozes quer do sacerdote ofertante, quer do povo cristão que louva o sumo Deus; em elevar os corações dos fiéis a Deus por uma intrínseca virtude sua, em tornar mais vivas e fervorosas as orações litúrgicas da comunidade cristã, para que Deus uno e trino possa ser por todos louvado e invocado com mais intensidade e eficácia.

Haec enim est sacrae musicae dignitas, hoc sublime eius propositum, ut voces sive sacerdotis offerentis sive populi christiani Summum Deum laudantis pulcherrimis suis modulationibus suisque fulgoribus decoret let exornet, adstantium fidelium mentes vi quadam et virtute sibi innata ad Deum rapiat, liturgicas christianae communitatis preces vividiores ferventioresque reddat, quo validius, impensius, efficacius omnes Deum Unum et Trinum laudare eique supplicare possint.

Este post tem 3 comentários

  1. joao

    Sensacional essa pproposta de vocês! E’ urgente uma renovação e formação de músicos nas igrejas católicas…

  2. Addrian Sebastian

    O interessante é que o texto tem justamente essa relevância por se tratar da nossa própria fé que é na Encarnação do Verbo. Ou seja, é a Palavra que deve se encarnar e se tornar Cristo em nós! Excelentes conceitos!

  3. Tom Lima

    Acho fundamental esta visão da música litúrgica completamente de acordo com a Sagrada Liturgia

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